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#3 Assunto do mês: Por uma coalizão verde e rosa: como unir os movimentos ambientais e LGBTQIA+

Os movimentos por justiça social veem repetidamente suas bases sofrendo os impactos da superexploração dos recursos naturais e, por isso, unem suas pautas ao ambientalismo. Povos originários sempre estiveram cientes de como suas vidas dependem de sistemas naturais, enquanto o ecofeminismo e os movimentos de justiça e racismo ambiental têm histórias que atravessam décadas. Entretanto, a conexão entre o ambientalismo e as causas LGBTQIA+ ainda são menos discutidas, por isso é urgente que os movimentos juntem suas forças para a implementação de políticas sustentáveis e inclusivas.


Na prática, as pautas ambientais e LGBTQIA+ já interagem entre si. Um estudo identificou que, nos EUA, pessoas homossexuais ou bissexuais têm uma probabilidade 2,36 vezes maior de participarem de coletivos ambientalistas. Uma possível explicação pode ser o alto engajamento das juventudes com ambas as pautas.A população que se identifica como LGBTQIA+ no Brasil é mais jovem na média, e movimentos ambientais têm renovado as suas lideranças e focado suas mensagens na promessa de um futuro mais igualitário e sustentável para as próximas gerações.

Mas então como converter essa interação em ganhos para a população LGBTQIA+?


Tomemos um exemplo dos anos 80, durante a epidemia de AIDS em Nova Iorque. A mídia caracterizou a doença originalmente como um "câncer gay" - o que além de aumentar o estigma sofrido por homens gays, e até por mulheres transgênero, retardou o entendimento adequado da doença pela medicina. Mulheres cis (isto é, não-trans), por exemplo, não podiam ser diagnosticadas com AIDS e não precisavam ser incluídas em estudos da doença ou em testes clínicos de novos tratamentos.


Isso não teria mudado sem o trabalho de mulheres lésbicas participantes do ACT UP, uma coalizão pelos direitos das pessoas com AIDS, que demandaram alterações específicas aos legisladores e às agências de controle sanitário. Uma dessas mulheres, Sarah Schulman, conta essa história no recente livro Let the Record Show (sem versão no Brasil). Nele, ela expõe o modelo de ativismo que parece explicar o sucesso na atuação do ACT UP e que pode ser ampliado para outras formas de ativismo de movimentos LGBTQIA+: elas conheciam os problemas intimamente, incluindo as instituições relevantes que deveriam ser pressionadas, e tomavam liderança na elaboração de soluções efetivas e implementáveis. Membros do ACT UP também tinham autonomia para conduzir seus próprios projetos dentro do movimento, mantendo os ativistas engajados e permitindo que os problemas fossem abordados sob várias perspectivas simultaneamente.


Políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas são necessárias em áreas tão diversas quanto a oferta de serviços de saúde, a contratação na construção civil e o crédito agrícola. Em todas essas esferas, corre-se o risco de que intervenções sejam pensadas apenas para pessoas heterossexuais e cisgênero (isso é, não-transgênero), ignorando as necessidades específicas de outras identidades não-normativas. Inspirados pelo ACT UP, movimentos pelos direitos LGBTQIA+ podem participar da elaboração de políticas ambientais, trazendo propostas específicas que combatam essas formas de invisibilização.


O Inflation Reduction Act, (lei estadunidense de 2022 que representa o maior pacote de investimentos verdes da história) fornece um caminho para aumentar a empregabilidade de pessoas LGBTQIA+ ao incluir requerimentos de estágios e de progressão carreira para jovens em áreas tradicionalmente dominadas por homens cis heterossexuais, Mais: se poderia pensar em vagas exclusivas para pessoas transgênero. E nos moldes do Pronaf Mulher, que é uma linha de crédito voltada às necessidades da mulher produtora rural, seria possível um Pronaf LGBTQIA+, que ajudaria a suprir a falta de oportunidades que essas comunidades enfrentam fora dos grandes centros urbanos. Pessoas LGBTQIA+ (em especial as pessoas transgênero) também vivem sob a constante ameaça de hostilidades, e deve-se explorar como garantir que essas violências não se repitam quando alguém busca qualquer tipo de atendimento público.


Ainda que dados sobre a população LGBTQIA+ brasileira ainda sejam muito escassos, já se pode mapear múltiplas oportunidades de colaboração com outros movimentos e com setores do poder público. Quais políticas serão viáveis e efetivas, somente movimentos diversos e pró ativos poderão nos mostrar.


Esse texto faz parte da série Assunto do Mês, publicação mensal sobre um tema relacionado a sustentabilidade. Se você tiver alguma sugestão de assunto nos envie pelo contato@netimpactpoa.org ou pelas nossas redes sociais.

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